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Usina de Estreito – Uma Luta Contra o Tempo
A experiência adquirida na construção da Usina de Furnas levou o Governo Federal a prorrogar a existência de FURNAS e confiar-lhe outra missão: a construção da Usina de Estreito, um sonho dos técnicos e barrageiros da nova empresa.
Desde o início, Estreito sempre pareceu tocada por bons fluidos. Em toda sua evolução, da primeira à última estaca, coincidências extraordinárias aconteceram e – todas elas – invariavelmente, com os ventos soprando a seu favor.
Para começar, a obra foi “inaugurada” antes de iniciada. No dia 12 de maio de 1965, uma caravana constituída de autoridades governamentais e que se dirigia a Furnas, distante 100 km, a fim de inaugurar, oficialmente, aquela usina, passou pelo Estreito e ali parou.
Foi então que o presidente da República, Castello Branco, depois de descerrar a placa comemorativa, fez detonar uma carga de dinamite sobre o terreno em que seria instalado o canteiro de obras e declarou simbolicamente inaugurada a futura usina.
Em tese, com a conclusão de Furnas, deveria estar legalmente extinto o mandato conferido à Diretoria em 1957, que lhe atribuía poderes, unicamente, para sua construção e instalação. Mas, com a virtual “inauguração” de outra usina (com placa, carga de dinamite e discursos específicos) o presidente, aludindo, antecipadamente, a atos oficiais que viriam “a posteriori”, prorrogou – na prática – o referido mandato.
Um parêntese para localizar a figura do peão. Parafraseando Euclides da Cunha, ao afirmar que o sertanejo, antes de tudo, é um forte, pode-se afirmar que o nosso peão, antes de tudo, é um bravo. Bravo no sentido de destemor, desassombro, disposição para o trabalho. Sua característica é a de afeiçoar-se, logo de entrada, à empreitada a que se dedica. Em seu meio, não há diferenças de cor, de sangue, de hábitos.
E, uma vez trabalhador de uma barragem, é quase regra geral: tornar-se barrageiro para o resto da vida. É uma sina, um jeito de viver. São sempre os mesmos, suando, labutando, hoje aqui, amanhã ali, nas mais desencontradas frentes de trabalho. São ciganos, sem pouso certo. Ontem em Furnas, hoje em Estreito. Amanhã? Quem sabe? Seguem para onde as obras os chamam. O que querem é “trabalhar sempre nas FURNAS, êta empresão desconforme”.
Nem a idade, nem a religião, nem a naturalidade (pois miniros, sulinos ou nordestinos formam um amálgama comum) os desunem. Sua união vem do trabalho, só do trabalho. Em pouco tempo, e com facilidade, se adaptam às mais diversas funções: soldadores, tratoristas, marteleteiros. Às vezes, sem nenhum temor, em pouco tempo estão operando equipamentos jamais vistos anteriormente. Têm rara habilidade.
Conta Flavio Lyra, em seu depoimento a FURNAS – Projeto Memória, que um engenheiro, encantado com a mestria de um deles, chamou-o e, entregando-lhe uma chapa de aço, disse-lhe que recortasse “esse desenho aqui”. O operário apanhou o maçarico e, a mão livre, executou o serviço à perfeição.
Trabalham na dureza, às vezes fazendo horas extras durante toda a semana, comendo em marmitas ou nos refeitórios coletivos. Não bebem, e nem lhes é permitido beber. Mas, aos sábados, é a esbórnia. Vão para a cidade, embrenham-se nos bares e cabarés. Bebem, brigam. E gastam num dia, ou numa noite, o salário de uma semana inteira de trabalho. Não se importam. Não folgaram à vontade? Então, valeu a pena... E na segunda-feira, bem cedinho, bolsos vazios, cigarro na boca, lá estão eles batendo o ponto, pegando o serrote, o martelo, a colher de pedreiro, a perfuratriz, voltando para a dura e suada labuta de todos os dias.
Foi com uma dessas aguerridas equipes de barageiros que se iniciaram as obras de Estreito.
Era uma faxina geral: instalações de canteiros, desvio do rio, escavações de rocha, canal de adução, tudo o que era preciso fazer e refazer foi feito e refeito, neste ou naquele setor. Com vigor e determinação
Na retaguarda, nos escritórios do Rio e São Paulo, aguardavam-se os equipamentos pesados: as turbinas da Voith, os geradores da Asea – tanto estes, quanto aquelas, feitos parcialmente no Brasil. Mas as principais peças do maquinário, importadas, demoraram a chegar. Além disso, uma longa temporada de intensas chuvas dificultou a execução das obras.
Mas em 66 e 67, de olho na exigüidade dos prazos, a luta continuava viva e o ritmo alucinante. A 9 de abril desse ano de 67, com a presença do ministro das Minas e Energia, gen. Costa Cavalcanti, o rio foi desviado para a galeria de concreto, construída em seu leito. Daí por diante, intensificou-se a colocação de material no corpo da barragem. Em dezembro, no dia 31, 60% das obras, inclusive civis, estavam concluídas.
Em 68, a luta continuava. Os portuários de Nova York entraram em greve e a remessa do material estrangeiro atrasou-se, mas as peças chegaram ainda em 1969 e a equipe conseguiu a instalação antes do prazo. E, assim, a Usina de Estreito, que já vinha operando comercialmente desde o final de 69, foi inaugurada, oficialmente, no dia 9 de julho de 1970. Sua construção, tal a rapidez com que foi executada, constitui, sem dúvida, uma das mais bonitas páginas da história de nossa engenharia.
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